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sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Novas tecnologias: a perspectiva dos avós



Este vídeo está a ser um sucesso no YouTube e mostra um casal de idosos a tentar perceber como funciona uma Web Cam.
Faz-me lembrar uma história que a minha avó conta,  de tempos passados, quando começaram a aparecer as primeiras televisões. A minha avó, ainda solteira vivia com a sua mãe, viúva, muito zelosa na educação e na preservação do bom nome das duas filhas solteiras. Depois de muita insistência das pequenas, lá se prontificou a comprar uma televisão para casa, coisa rara na aldeia, à época. Quando ligaram o dito aparelho para assistir à novela, a minha bisavó sentada na sua poltrona vê tudo do início ao fim sem fazer comentários e sem mostrar grande entusiasmo com a novidade  e depois de desligarem a televisão vira-se para as filhas e diz num tom autoritário:
- Minhas meninas, isto é uma casa de gente séria e eu não quero cá em casa gente que eunão conheço de lado nenhum a fazer estas poucas vergonhas!
Foi um bico d'obra convencê-la a ficar com o aparelho.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

E por falar em vinho...


No fim-de-semana passado foi tempo de vindimas.
Cumpriu-se mais um ano o ritual e lá rumei eu a Trás-os-Montes para participar na festa das vindimas.
Mais um pretexto para reunir a família e, em comunhão com a natureza, trabalhar um bocadinho, rir um bom bocado, comer um bocadão e beber até rebentar. Eu não, que me foi atribuída a penosa tarefa de transportar o pessoal para casa.
Fiz o trajecto entre a vinha e a casa da aldeia umas cinco vezes, e os que não responderem ao chamamento, perdidos que estavam a sonhar com o líquido alcoólico que lhes corria nas veias, numa bela duma sombra, não tiveram outro remédio se não regressar a pé no final da tarde.
Mas no dia seguinte é que são elas. Como animais da cidade que somos, pouco habituados às lides agrícolas, as maleitas eram mais que muitas. Nada que não se esqueça até ao próximo ano, altura em que estaremos novamente prontos a festejar... 

terça-feira, 23 de agosto de 2011

O sacristão destemido

Não sendo uma pessoa que possa dizer que tenha uma vida longa e preenchida de vivências e histórias para partilhar, posso considerar-me uma felizarda por ter nascido numa pequena aldeia do interior e ter vivido uma infância repleta de aromas, sabores, brincadeiras e histórias de tempos idos, dum passado que foi meu mas que parece longínquo e irreal aos ouvidos de qualquer criança dos dias de hoje.
Filha de pais jovens, tive uma convivência muito próxima com a minha também jovem avó, com quem passava grande parte dos dias, no tempo em que a escola era apenas uma pequena parte da jornada diária, (cinco horas pela manhã mais uns rabiscos em casa, que se faziam com agrado, e o dever estava cumprido).
Esta minha avó é uma alma bastante generosa, amiga de dar, mas dona de uma língua afiada que não passa despercebida aos olhos de ninguém da aldeia. Tudo se sabia e ouvia no pátio lá de casa entre novelos de crochet e fornadas de dormidos, o que me tornava portadora de todas as novidades, segredos e fofocas da aldeia. As histórias eram tantas e repetidas tantas vezes que mesmo não tendo interesse algum no assunto, ficavam retidas na minha ainda fresca memória.
Uma das peripécias que ainda hoje recordo, e que nunca consegui saber se era verdadeira ou ficcionada, é a do sacerdote da aldeia que andava enrabichado por uma das sua ovelhas. Nada de anormal e até aceite pela população, desde que não interferisse com o bom desempenho das suas funções. O caricato da situação é que a dita cuja era uma jovem solteira, que havia sido prometida ao sacristão da paróquia. Quando chegou aos seus ouvidos que a sua noiva donzela andava a ser rondada pelo padre, na preparação da Eucaristia de Domingo colocou no cálice, junto com um pouco de vinho do Porto, urina de cão que o pároco bebeu sem estranheza.
Logo em seguida o sacristão aproximou-se do púlpito das leituras e proferiu a seguinte frase:
«Já que o senhor padre gosta de molhar o bico naquilo que é dos outros, espero que tenha apreciado o mijo do meu canito.»
Foi uma boa lição para o sacerdote que teve, literalmente, de ir pregar para outra freguesia.